Quando tiver um tempinho livre (e ausência acentuada de preguiça) tentarei publicar aqui no blogue uma mini crítica a todos estes filmes. Nothing special. Apenas uma nota de referência. For the record.

Haneke começou a realizar na Alemanha Ocidental nos anos 70. A sua primeira longa-metragem foi “O Sétimo Continente” (1989), um filme que eu achei particularmente devastador e mais não é que um cuidado ensaio sobre a monotonia da vida moderna e o papel do suicídio. “Funny Games” (1997) foi também um filme interessante, amplamente discutido quanto aos limites a que levou o cinema. O supra sumo do niilismo da violência. “A Pianista” (2001) impressionou-me a diferentes níveis de tão perturbadora que era a história, mas ainda assim fascinou-me sobremaneira. O que todos estes filmes têm de denominador comum é serem obras de grande violência, física e emocional (sobretudo emocional).
E o “Laço Branco” não foge a essa realidade. Este mais recente filme de Michael Haneke é um filme duro, é qualquer coisa de majestoso. Um realismo sublime a preto e branco, num retrato cru e duro da inocência perdida (com um narrador idoso, em voz-off, a contar o que lhe aconteceu na juventude). As elipses são profundamente hábeis, inteligentes, a ausência total de música (salvo quando as personagens entram em cena) num rigor imponente apontam o essencial, num expressionismo pessimista, numa ruralidade deprimida e protestante. Uma clareza que desvenda algumas verdades, mas, também, paradoxalmente e sobretudo, serve para confundir a maneira de se olhar. Só insinuações, sem respostas.
Um quadro ostensivo, austero, nas vésperas da I Guerra Mundial, numa pacata aldeia do norte da Alemanha, Eichwald, que se vê agitada nos mistérios de uma série de crimes cruéis, bizarros que acabam por expor a verdadeira natureza dos habitantes. Os fantasmas, os criminosos, as diferentes teias narrativas eivadas de múltiplas leituras tridimensionais - como “Avatar” nunca terá…
No centro da acção, está um peculiar grupo de crianças. O subtítulo do filme diz que esta é “uma história de crianças” que revela muito sobre os adultos. As crianças servem de exemplo da prática do bem e até usam laços brancos, em sinal de pureza. Mas, não nos podemos esquecer do mais importante: o que não se vê pode ser ainda mais assustador do que o que se vê. Nada é absolutamente linear, o mal absoluto não existe e o que impera é o mal estar social. Uma coisa é evidente em relação ao contexto histórico do filme e a época determinante na história da Alemanha. Trata-se de um país prestes a entrar numa guerra que resultaria em milhões de mortos e na humilhante derrota da Alemanha. Numa Alemanha que foi castigada em Versailles e que instaurou o regime nazi. Essa guerra seria protagonizada por jovens que um dia foram crianças. As crianças que vemos neste filme, e que no fundo são a sua essência, serão jovens adultos durante o Terceiro Reich, jovens que desenterraram as raízes do mal da sua infância. E pelas suas atitudes rígidas e rostos inexpressivos, vemos neles futuros simpatizantes Nazis.
O que o filme nos mostra é a forma como a educação moldada em superioridade moral, preconceito e medo pode causar no futuro. Não só o desenvolvimento de ideias fascistas como também, possivelmente, o extremismo religioso por detrás do terrorismo dos nossos dias. No entanto, apesar deste enfoque, o filme não deve ser apenas visto na dimensão social da época em questão. Há coisas que são transversais no tempo: a crueldade, o pessimismo em relação às pessoas ou, atrevo-me, a simples realidade da condição humana. Desencantada.

Depois do tabagismo (”Obrigado por Fumar”, 2005) e da gravidez adolescente (”Juno”, 2008), Reitman volta a abordar mais um tema na ordem do dia - o desemprego. Já lá vão uns anos desde que “Juno” chegou às salas de cinema e fez um brilharete perante a crítica e o público e, agora, o que esperar?
O argumento de “Up In The Air” é baseado no homónimo romance literário de Walter Kirn e explora questões fulcrais da sociedade contemporânea, nomeadamente a instabilidade financeira dos mercados económicos, já que o mundo está a passar por um momento onde esta história não podia ser a mais dura das realidades. Apesar da importância do tema abordado não consegui ao longo de todo o filme sentir mais do que um drama empresarial agridoce, exactamente pelo facto de não ser dramaticamente excepcional. Sinto-me quase como Ryan Bingham (George Clooney) perante os despedimentos que nos vão sendo apresentados. Não há emoção, tudo é mecânico, sincopado, previamente estudado. Não há surpresas. E isso desagradou-me em parte. Afinal de contas, o clima de insegurança financeiro que domina a agenda informativa contemporânea e que é espelhado nos rostos de milhares de pessoas nos telejornais diários com as suas graves repercussões tem, no mínimo, de provocar alguma comoção. Provavelmente, o problema é meu e não consegui encarar com a necessária humanidade a comunicação de um indivíduo perante outro, informando-o que está no desemprego. Portanto, num filme em que se critica a ausência de ligação emocional entre seres humanos num mundo cada vez mais globalizado parece-me que aquele deveria, pelo menos, causar esse mal-estar no espectador que assiste sem poder fazer nada. Mas, a verdade é que em momento nenhum do filme me preocupei com aquelas pessoas. O argumento releva isso para segundo plano. O que está verdadeiramente em causa não é o problema do desemprego ou do progressivo escudar das empresas, públicas e privadas, em sistemas virtuais de relação com os seus empregados. O que está em cima da mesa é saber: quanto pesa a nossa vida?
Não pensem que com o que disse até aqui não gostei do filme, pois gostei bastante do mesmo, mas não me parece que “Nas Nuvens” seja um filme destacável por inexcedíveis qualidade técnicas. Contém sim uma história provavelmente muito real, crua.
Ryan Bingham (George Clooney) é um quarentão empedernido, a esbanjar charme e elegância, e com fobia ao compromisso. A sua especialidade é despedir pessoas, reformulando as necessidades empresariais com vista à maximização de recursos. Por isso, está sempre a viajar em trabalho, de avião, facto que aproveita para coleccionar milhas aéreas (só num ano passou 322 dias a viajar e voou 350 mil milhas. Nota: da Terra à Lua distam 250 mil milhas…). Porém, quando está prestes a atingir o objectivo dos dez milhões de milhas eis quando entram em cena, precisamente, duas novas mulheres que arrasam o seu estilo de vida: uma por querer implementar um novo sistema de despedimento à distância, poupando à empresa combustível, reservas de hotel e despesas de representação. Outra por quem este homem se apaixona e talvez seja tão descomprometida por natureza quanto ele. Clooney e Vera Farmiga são excelentes nos papéis.
A ideia de estar confinado a um escritório seria a mais aterradora de toda a sua carreira, não fosse algo ter mudado. Ryan é um profissional de sucesso, que transporta o seu mundo numa mala de viagem. Esta é também a analogia a que recorre para um workshop que criou e que inicia com uma questão difícil: quanto pesa a vossa vida?
Posto isto: quanto pesa?


Falar dos filmes de Eastwood é-me muito complicado e cada vez mais difícil. Tenho desenvolvido por este realizador um amor devoto e fiel. Como se devem recordar, há cerca de um ano estreava “Gran Torino” e “A Troca”. “Gran Torino” foi para mim a cereja no topo do bolo. Um filme belíssimo, comovente, numa interpretação fantástica do próprio Clint, uma banda sonora delicada e, ao mesmo tempo, pungente.
Quando ouvi falar de “Invictus” fiquei curiosa e muito expectante e, por isso, mal tive a possibilidade de ter o filme deliciei-me. É verdade que este não é o seu melhor filme. É verdade que Clint Eastwood já nos deu obras maiores do que “Invictus”, mais intensas, mais carismáticas, mas este é provavelmente o seu filme mais esperançoso. E perante o mundo actual é bom podermos ver um filme que nos faça desejar algo melhor. E, sobretudo, sentir que é possível.
“Invictus” é um filme escrito por Anthony Peckham, baseado na obra literária de John Carlin intitulada de ‘Playing the Enemy: Nelson Mandela and the Game That Made a Nation’. É um hino importantíssimo à humanidade e, obviamente, a Mandela. Uma história sobre a reconstrução de um país, sobre o perdão, que através do desporto dá o seu primeiro passo em direcção à paz e união entre Sul-Africanos. A obra por si só, é inspirada na história verdadeira de Nelson Mandela, aquando da sua libertação em 1990, depois de 3 décadas encarcerado na prisão de Robben Island. Mandela foi eleito presidente da África do Sul em 1994, nas primeiras eleições livres do país, e foi um dos principais opositores ao regime do Apartheid que assolava a nação Sul-Africana. O seu ideário político visava uma nação unida, sem discriminação na raça, crenças, ou religião, rumo à “nação arco-íris”. Quando Nelson Mandela conquistou a presidência sabia que esta mudança puramente formal não era suficiente para extinguir os ódios enraizados durante décadas. O seu esforço orientou-se no sentido de unir negros e brancos através de algo que pudesse encarnar a alma nacional: o desporto. Num golpe de génio, viu na final da Taça Mundial de Râguebi de 1995 a oportunidade única para pôr em prática o seu plano. 1995 seria o ano em que o râguebi uniu um país dividido pela raça, pelo ódio e pela economia.
A opção por se focar num momento de Nelson Mandela confirmou-se como acertada. Ao invés de um previsível épico sobre o ícone em construção, Morgan Freeman capta a essência da figura num momento da História. E fá-lo ao ponto de ser difícil imaginar algum actor tão indicado para o papel - um trabalho magistralmente interpretado! Qual professor, Mandela dá-nos uma lição de paz. Há aqui desporto e política, mas o filme não é sobre nenhuma dessas coisas. Afinal, “Invictus” é um filme sobre o poder da poesia. Sobre o poder avassalador das palavras nos homens. Pelo menos, em alguns.
“Invictus”, título do filme, é um poema de William Ernest Henley, o qual serviu de inspiração enquanto Nelson Mandela esteve preso:
Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.
In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.
Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.
It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.
As intenções do presidente eram nobres, mas a situação no país não seria tão facilmente controlada. François Pienaar, o capitão dos Springboks, a selecção Sul-Africana de râguebi farto das sucessivas derrotas, vê em Mandela um exemplo exímio de como conseguir unir a sua equipa rumo à vitória. Mandela vê em Pienaar o líder necessário para inspirar confiança a uma equipa que poderá ter uma influência esmagadora nos problemas sociais do país.
A força do desporto no mundo é por de mais evidente. A sua projecção e impacto é quase assustadora. Vejamos os ataques nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972. O Massacre de Munique teve lugar durante os Jogos Olímpicos de Verão de 1972 quando, a 5 de Setembro, 11 membros da equipa olímpica de Israel foram tomados reféns pelo grupo terrorista palestino denominado Setembro Negro. Vejamos, também, a investida das forças rebeldes da província de Cabinda, na Taça das Nações Africanas ainda a decorrer em Angola.
O triunfo em campo dos Springboks não curou o racismo. Mas por momentos foi capaz de o pôr de parte. E se ao menos pudesse ser assim mais vezes…



“Van Diemen’s Land” chegou-me aos olhos por acaso e foi uma agradável surpresa, apesar de ser tudo menos um filme “agradável”. Do estreante Jonathan auf der Heide, o filme conta a história verdadeira sobre um grupo de presos, no início dos anos de 1800, que está a trabalhar na ilha que mais tarde seria chamada Tasmânia. O primeiro europeu a avistar a Tasmânia de maneira comprovada foi o explorador neerlandês Abel Tasman, em 24 de Novembro de 1642, que chamou a ilha de Anthoonij van Diemenslandt, em homenagem a seu patrocinador, o Governador das Índias Orientais Holandesas. O nome foi mais tarde encurtado para Van Diemens Land pelos britânicos. Os primeiros colonos eram na grande maioria presidiários e os seus guardas militares, com a missão de desenvolver a agricultura e outras actividades. Diversas outras colónias penais foram estabelecidas em Van Diemens Land, incluindo prisões secundárias, como as particularmente severas colónias penais de Port Arthur no sudeste e Macquarie Harbour na costa oeste. Van Diemens Land foi proclamada uma colónia à parte da Nova Gales do Sul, com o seu próprio sistema judiciário e conselho legislativo, em 3 de Dezembro de 1825.
Em 1822, Alexander Pearce (Oscar Redding) e outros sete condenados escaparam de Macquarie Harbour, o lugar reservado para os piores criminosos. No início, os homens apreciam a sua liberdade repentina, mas quando o alimento se esgota as tensões aumentam e algumas alianças são formadas. A verdade é que os homens escaparam de uma prisão para entrarem numa pior que parece ser interminável e muito mais perigosa. Alguns deles decidem que o mais fraco do grupo deve ser oferecido para o resto. Verdadeiramente perturbador. As cenas de violência levam quase ao vómito de tão reais. O sangue, a carne, a pele, os ossos.
Para além das grandes actuações do elenco, a paisagem é das coisas mais impressionantes, perfeitamente captada pela direcção de fotografia de Ellery Ryan. A ausência de música, só o som natural das coisas, os arbustos, os pés na lama, o corpo a entrar na água, os diálogos condensados, levam ao isolamento total desses personagens presos numa prisão aberta. A vastidão é assustadora.
Alexander Pearce acaba por ser o único sobrevivente e descobre no canibalismo a beleza da morte. Quando foi recapturado contou uma macabra história de como sobreviveu no limite da fome. Foi considerado louco até que alguns factos indicaram a veracidade no que relatou.

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