Melhor Filme
Vai, certamente, ganhar Avatar quanto mais não seja como fenómeno de massas (para alguma tristeza minha - não consigo ir à bola com o filme). Estado de Guerra mereceria o Óscar.

Melhor Realizador
Kathryn Bigelow (o ex-marido fica com o melhor filme, ela como melhor realizadora - um autêntico “acordo” de cavalheiros é o que irá acontecer). Fico com alguma pena por Tarantino em Sacanas sem Lei.

Melhor Actor
Jeff Bridges ganhará com Crazy Heart (mais vale tarde que nunca), mas Colin Firth em Um Homem Singular merece destaque e provavelmente uma surpresa..

Melhor Actriz
Digam o que quiserem da Sandra Bullock, mas acredito que desta vez Meryl Streep com Julie e Júlia leva a estatueta - merecidamente!

Melhor Actor Secundário
Christoph Waltz - Sacanas Sem Lei - SEM DÚVIDAS!

Melhor Actriz Secundária
Mo’nique - Precious

Melhor Argumento Original
Quentino Tarantino - Sacanas Sem Lei

Melhor Argumento Adaptado
Ganhará Nas Nuvens, até quanto mais não seja para premiar o “puto” indie de Juno. Mas mereceria o óscar Precious.

Melhor Filme Estrangeiro
Laço Branco (mas, não deixem de ver O Profeta)

Melhor Filme de Animação
Up - Altamente

Melhor Direcção Artística
Avatar

Melhor Fotografia
O Laço Branco
- de uma beleza estonteante!

Melhor Guarda Roupa
Coco before Chane
l - Catherine Leterrier

Melhor Documentário
The Cove
- novamente a ecologia como preocupação e
o massacre anual de golfinhos no Japão

Melhor Montagem
Avatar

Melhor Banda Sonora
Gostaria que ganhasse Up - Altamente - Michael Giacchino, mas é provável que Sherlock Holmes - Hans Zimmer leve a melhor. A ver vamos..

Melhor Canção
“The Weary Kind” - Crazy Heart

Melhores Efeitos Visuais
Avatar

Melhor Documentário - Curta-Metragem
China’s Unnatural Disaster: The Tears of Sichuan Province
(passou no Cine Eco 2009)

Apeteces-me

Author: Vanessa Pelerigo

Conta-mo outra vez: é tão bonito
que não me canso nunca de escutá-lo.
Repete-me outra vez que o par
do conto foi feliz até à morte.
Que ela não lhe foi infiel, que a ele nem sequer
lhe ocorreu enganá-la. E não te esqueças
de que, apesar do tempo e dos problemas,
continuaram beijando-se cada noite.
Conta-mo mil vezes por favor:
é a história mais bela que conheço.

Amalia Bautista

E de repente entro de novo naquela sala e toda eu me agito por dentro. Milhares de pássaros voam-me no estômago, descontrolados. Milhares de lágrimas comovidas passeiam-se dentro dos olhos, à espera de explodir. Entro devagar, quase a medo. O coração rasga-me o peito à velocidade da luz. Olho para as paredes - nada mudou. Olho para o chão, gasto nos mesmos sítios. Recordo o mesmo cheiro. Agora, quase ninguém, mas ainda é cedo. Podia jurar que se consegue ouvir o silêncio. Páro. Meto as mãos nos bolsos. Os dedos gelaram de ânsia. Desço as escadas em direcção à casa de banho para tentar aliviar o nervoso da bexiga. Beijas-me. Eu páro, uma vez mais, e tu segues. As lágrimas quase rebentam. Resisto. Entro na casa de banho, olho-me ao espelho um par de minutos. Penso: foi aqui que tudo começou. Foi aqui que me ensinaram a felicidade. Dou por mim a suster o choro, tal é a intensidade da recordação. Molho os olhos com água fria e a boca. Seco as mãos à pressa e saio.
Encontro-te. Toda eu tremo a teu lado. Puxas-me para junto de ti e abraças-me. Subimos as escadas e cada um vai para seu lado. Tenho de sair dali depressa antes que os olhos se inundem e todos percebam que foi ali que nasci. Antes que tu percebas que antes de ti nada existiu. Antes que entendas que eu não existia antes de ti. Dou passos apressados, distraio-me nuns quadros a lembrar Dalí. E penso na ironia de voltar a um local onde se foi feliz. Respiro fundo, controlo a memória. Sento-me num cadeirão e olho para o tecto. Curiosamente, na rádio começa a dar uma música que não poderia fazer mais sentido: “Entre por essa porta agora / E diga que me adora / Você tem meia hora / P’ra mudar a minha vida”.
Levanto-me em direcção a outra sala. Sento-me na última fila. Oiço-te com orgulho a dares vazão a tantas palavras. Completamente babada, enternecida. E, no entanto, só quero ter-te aqui ao pé, sem mais ninguém. Reparo nos contornos da tua boca a lembrarem o pecado, nos teus olhos a dizerem o céu. No movimento das tuas mãos a falarem apaixonadas. E ali toda a certeza do mundo em como só te poderia amar.
Agarro no telemóvel. E escrevo algo que te faça saber que é para sempre este querer.

Vanessa Pelerigo

Open Up You Door

Author: Vanessa Pelerigo

Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega — o pior já passou há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão desvia os passos do medo. Dorme, meu amor — a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste e pode levantar-se como um pássaro assim que adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra não hão-de derrubar-me — eu já morri muitas vezes e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos agora e sossega — a porta está trancada; e os fantasmas da casa que o jardim devorou andam perdidos nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme, meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui, de guarda aos pesadelos — a noite é um poema que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.

Maria do Rosário Pedreira

Explodiu-me uma bomba no peito quando te dei o primeiro beijo. Agora, levo-te comigo ao som desta música na promessa de muitos mais…

Open up your door
I can’t see your face no more
Love is so hard to find
And even harder to define

Ooh open up your door
Cause we’ve time to give
And I’m feeling it so much more
Open up the door
Open up your door

Open up the door
I can’t hear your voice no more
I just want to make you smile
Maybe stay with you a while

Ooh open up your door
Cause we’ve time to give
And my feelings aren’t so obscure
Open up the door
Open up your door

So open up your door
Cause we’ve time to give
And I’m feeling it so much more

Open up your door
Ooh open up your door
Love is so hard to find
And even harder to define
Ooh open up your door
I’ve never been so sure
Ooh open up your door
Open up the door

Porque todas as palavras eram grosseiras e vãs. Depois de se dizerem não ficava mais nada para se dizer. E há coisas que nunca se podem dizer de todo.

Vergílio Ferreira
in Para Sempre

(ler o livro aqui)

ouvir BEM ALTO, de preferência de olhos fechados.

A sós contigo. Toda a história do mundo reduzida a mim e a ti. Com muitas circunstâncias adjacentes sem importância nenhuma.

Vergílio Ferreira in Até ao fim

Não é saber que será para sempre - é perceber que é desde sempre. Que é desde sempre que te quero (e eu digo-te ao ouvido que não sou de mais ninguém). Que é desde sempre esta luz nos olhos como a manhã iluminada nos teus pulsos. Esta mão a passar-te pelos cabelos toda a ternura do meu peito - as mãos sufocam-se na perfeição. Se soubesses as vezes que hoje te disse amo-te, sem nunca teres escutado. Escreve-me como se estivesses longe na guerra. Prometo que respondo à tua saudade com milhões de beijos.

Os dias de chuva são um disfarce para as lágrimas - pequenos medos, pequenas dores que já não cabem cá dentro. Se soubesses como estas me lavam e afogam. Que é desde sempre que carrego brasas no coração. O meu médico diz que não há cura. Bastam dois comprimidos para disfarçar a ânsia.
É desde sempre que consigo desmanchar-te no escuro, com a ganância de te provar. Masturbas-me a alma com precisão de ourives. E se fizéssemos Amor? Tudo bate certo menos o coração.
Não sei se mudaste a rotina de lugar, mas mesmo com frio, ficarei a sorrir por te ter.

Vanessa Pelerigo

When the rain
Is blowing in your face
And the whole world
Is on your case
I could offer you
A warm embrace
To make you feel my love

When the evening shadows
And the stars appear
And there is no one there
To dry your tears
I could hold you
For a million years
To make you feel my love

I know you
Haven’t made
Your mind up yet
But I would never
Do you wrong
I’ve known it
From the moment
That we met
No doubt in my mind
Where you belong

I’d go hungry
I’d go black and blue
I’d go crawling
Down the avenue
No, there’s nothing
That I wouldn’t do
To make you feel my love

The storms are raging
On the rolling sea
And on the highway of regret
Though winds of change
Are throwing wild and free
You ain’t seen nothing
Like me yet

I could make you happy
Make your dreams come true
Nothing that I wouldn’t do
Go to the ends
Of the Earth for you
To make you feel my love

A noite treme

Author: Vanessa Pelerigo

Os cães vadios chegavam em bando, vindos do escuro do pinhal, magríssimos, amarelos ou cinzentos, com feridas no lombo e de nariz junto à terra, a murmurarem. Aproximávamo-nos e fugiam com medo. Comiam pássaros mortos, carcaças de coelho, detritos. Às vezes, ao crepúsculo, sentia-os à volta da casa, procurando os sobejos do lixo no caixote: restos de frango, ossos, farrapos de embalagens de margarina, caroços de fruta. De tempos a tempos soluçavam, não ladravam nunca. Um deles, de pata mirrada no ar, caminhava com as outras três e as velhas, sentadas de lado nos burros, ameaçavam-nos com a bengala. Ou então dava com os cães de roda da capoeira a mirarem as galinhas. A cozinheira achava que eram almas penadas de gatunos. Os miúdos matavam-nos à pedrada, sob os castanheiros, e os animais ficavam para ali, cheios de moscas, a enterrarem-se sozinhos: quando não se enterra uma coisa viva a coisa sepulta-se sem ajuda, a pouco e pouco. As formigas auxiliam. E umas lagartas esquisitas, esbranquiçadas: tantos mistérios no mundo. Os arcos-íris, por exemplo, ou os milhafres da montanha, quietos lá em cima, a escolherem o vento. Tornei a dar por eles em África. Pelo menos pareciam-me eles, só que maiores e mais imóveis ainda. A única coisa que me surpreendia era a cozinheira não estar lá, a repetir

- Os milhafres

pasmada. Um dia adoeceu do peito e levaram-na. Desceu as escadas amparada a dois bombeiros. Lembro-me das pantufas e de segredar, pela dificuldade da boca

- Não tornamos a encontrar-nos, menino.

E não tornámos a encontrar-nos, realmente: o hospital de Viseu tão longe. Tudo tão longe nesse tempo, as caras dos adultos quase junto ao tecto, as cadeiras enormes e o mundo a encolher com os anos. Quando fica pequeno adoecemos nós: já vão sendo horas de arranjar umas pantufas.

Aqui, onde estou, a noite treme: não são as árvores, não são as sombras, não é a roupa, pendurada nos fios, que mal se distingue: quem treme é a noite. Move-se devagarinho na direcção de quê? Uma ambulância a chorar na avenida, coroada de lâmpadas azuis e encarnadas: deve ser a cozinheira a atravessar Lisboa. Lucília. A mala dela debaixo da cama, quase vazia, uma santinha fosforescente no vão da janela, brincos de pobre numa latita. Cheirava a lenha e a azedo, começava a ter rugas em torno da boca: se durasse uns meses mais tornava-se uma velha sentada de lado no burro a ameaçar os cães vadios com a bengala. Ao almoço tiravam uma batata crua do xaile e principiavam a roer-lhe a casca numa lentidão avarenta, enquanto os maridos, de boné, arrastavam a bota esquerda no largo. Reparando bem como a noite treme. Ou será a minha mão no papel? Avança e recua na cadência do sangue e eu a dilatar-me e a encolher-me com ela. Vontade de lhe chamar diminutivos: noitinha. Tão bonitos os diminutivos na nossa língua. Noitinha. Não tornamos a encontrar-nos, menino. E os brincos de pobre que não saem da ideia, a ferrugem na latita. Em cada ambulância é ela a circular na cidade, sem repouso. Não há hora que a não oiça, à roda, à roda. Se me aproximasse da ambulância fugiria com medo, como os cães? Ou levava-me à despensa

- Apetece-lhe um quadradinho de marmelada?

e ficava a ver-me comer, muito séria. Que queres de mim, noitinha, que não paras de chamar-me? Oiço o meu nome. Oiço o pêlo do tapete crescer, devo sentir-me sozinho, sinto-me sozinho, noitinha, confesso que me sinto sozinho: não há por acaso um burro aí para eu me sentar de lado com a minha batata no xaile? Roê-la mesmo crua, mesmo com casca? Cheirar a azedo e a lenha? Os milhafres em Portugal, os milhafres em África. As cadeiras enormes, tudo enorme. Apagar as luzes e ficar na casa vazia, de olhos abertos, à espera que qualquer coisa venha e me leve, não importa para que sítio desde que seja longe, onde ninguém me chama. De qualquer maneira, mesmo que permaneça à secretária, ninguém há-de chamar-me.

António Lobo Antunes

Viciei!

Author: Vanessa Pelerigo

They made a statue of us
And it put it on a mountaintop

Now tourists come and stare at us
Blow bubbles with their gum
Take photographs have fun, have fun

They’ll name a city after us
And later say it’s all our fault
Then they’ll give us a talking to
Then they’ll give us a talking to
Because they’ve got years of experience

We’re living in a den of thieves
Rummaging for answers in the pages
We’re living in a den of thieves
And it’s contagious
And it’s contagious
And it’s contagious
And it’s contagious

We wear our scarves just like a noose
But not ’cause we want eternal sleep
And though our parts are slightly used
New ones are slave labor you can keep

We’re living in a den of thieves
Rummaging for answers in the pages
We’re living in a den of thieves
And it’s contagious
And it’s contagious
And it’s contagious
And it’s contagious

They made a statue of us
They made a statue of us
The tourists come and stare at us
The sculptor’s mama sends regards
They made a statue of us
They made a statue of us
Our noses have begun to rust
We’re living in a den of thieves
Rummaging for answers in the pages
Were living in a den of thieves

And it’s contagious
And it’s contagious
And it’s contagious
And it’s contagious
And it’s contagious
And it’s contagious
And it’s contagious
And it’s contagious

Carta Aberta a Salazar

Author: Vanessa Pelerigo

14ª Mostra de Teatro de Almada

Author: Vanessa Pelerigo

“O Viúvo”

Author: Vanessa Pelerigo

Um homem com uma verdade, é mais forte do que com uma arma.

Fernando Dacosta

Do autor só tinha lido “Máscaras de Salazar”, livro que gostei bastante por diversos factores. Primeiro porque, em parte, sempre me fascinou a figura de Salazar (nada de me chamar Salazarista que não o sou!!), nunca consegui ver o Dr. Salazar como uma pessoa intrinsecamente má (bem ao contrário de Franco, Mussolini ou Hitler). Tenho tentado aprofundar conhecimentos sobre ele e devo confessar que, não obstante o sofrimento que foi a ditadura para muitos, admiro-o muitíssimo pela sua intelectualidade, pela sua capacidade de endireitar as finanças num momento crucial. Depois porque, para quem se interesse por História, nomeadamente pela nossa História contemporânea, é um retrato fabuloso de todo o Estado Novo na figura do seu Presidente do Conselho.

Há uns tempos chegou-me às mãos “O Viúvo”, numa promoção irrecusável da Revista Visão. Acabei de o ler.  É um texto que dá gosto ler, em que Portugal fica viúvo porque perdeu o Império. Afinal de contas, são histórias comuns atrás de histórias dos homens para cultivar a memória viva, com gente dentro, a saber a vida, com emoções, com sabedoria. A não perder!

O viúvo é um romance diferente. Na sua narrativa, saturada de dor tranquila, caldeiam-se lances de realismo mágico, míudas observações do quotidiano pobre, reflexões e lembranças de um tempo revoluto, a ditadura, a guerra colonial, as romarias, os carrocéis, os cantores ambulantes, a mudança que chega através da televisão. É um melancólico, lúdico, lento romance, de estrutura e escrita aventurosa, perpassado por um canto agónico, às vezes iluminado por um riso novo, por comentários provocatórios, de uma inocência ou de uma acuidade invulgares.

Urbano Tavares Rodrigues

Sem memória esvai-se o presente que simultaneamente já é passado morto.

José Cardoso Pires

CinAlfama: Dia do Erotismo

Author: Vanessa Pelerigo

O CinAlfama orgulha-se de apresentar no dia 19 de Fevereiro (sexta-feira) na Adicense o primeiro Dia do Erotismo.

21:00 Sexo Mentiras e Vídeo (Sex, Lies and Videotapes) - (1989) de Steven Soderbergh, com James Spader e Andie Macdowell

23:00 - Intimidades (Intimacy)- (2001) de Patrice Chéreau, com Mark Rylance e Kerry Fox

Rua de São Pedro, nº20 em Alfama

“They Shoot Horses, Don’t They?”

Author: Vanessa Pelerigo

… ou o desejo de brilhar, de atingir metas, de sonhar…

Gloria Beatty: Maybe it’s just the whole world is like central casting. They got it all rigged before you ever show up.

Poderia ter sido dito hoje

Author: Vanessa Pelerigo

11

Author: Vanessa Pelerigo

Por todos os dias e por todas as noites.

Mais do que um sonho: comoção!
Sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido
.

E recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido
.

Mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor
.

David Mourão-Ferreira

António Lobo Antunes com o seu último romance «Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar», foi o vencedor, na primeira edição deste prémio, promovido pela RTP e pela SPA. Ah, grande Lobinho! :)

Miss Belle Dominique, o regresso!

Author: Vanessa Pelerigo

Ilustrarte 2009

Author: Vanessa Pelerigo

Sugestões

Author: Vanessa Pelerigo

Música de Câmara para Ensembles

Author: Vanessa Pelerigo

Zarzuelas

Author: Vanessa Pelerigo


A zarzuela, com origem em meados do século XVII, faz parte da memória colectiva dos espanhóis. Neste concerto é apresentada uma antologia deste género musical, incluindo obras e autores fundamentais na história da zarzuela. O repertório visa recriar os ambientes dos bairros de Madrid (onde muita desta música nasceu e se inspirou) e retratar diferentes épocas, personagens e episódios.

Every everything is new

Author: Vanessa Pelerigo

Every everything
Everything is new
Every everything
Everything is new
Every everything
Everything is new

I cried everything
Everything is new
I cried everything
Everything is new
Every everything
Everything is new

Antony and the Johnsons

Dir-te-ia qualquer coisa nova, bela, se nos meus olhos, se no meu corpo, não tivesses visto tudo o que me faz viver.

És o meu Porto.

V.

Amar é dar, derramar-me num vaso que nada retém e sou um fio de cana por onde circulam ventos e marés. Amar é aspirar as forças generosas que me rodeiam, o sol e os lumes, as fontes ubérrimas que vêm do fundo e do alto, água e ar, e derramá-las no corpo irmão, no cadinho que tudo guarda e transforma para que nada se perca e haja um equilíbrio perfeito entre o mesmo e o outro que tu iluminas. Dar tudo ao outro, dar-lhe tanta verdade quanta ele possa suportar, e mais e mais; obrigar o outro a elevar-se a um grau superior de eminência, fulguração, mas não tanto que o fira ou destrua em overdose que o leve a romper o contrato — o difícil equilíbrio dos amantes! Amar é raro porque poucos somos capazes de respirar as vastas planícies com a metade do seu pulmão; e amar é raro porque poucos aceitam a presença do seu gémeo, a boca insaciável de um irmão que todos os dias o vento esculpe e destrói.

Casimiro de Brito, in ‘Arte da Respiração’

Author: Vanessa Pelerigo

Pensar
é como tactear uma sombra
entrar de rastos
numa profusão de escuros

Ana Hatherly

(a carta da paixão)

Author: Vanessa Pelerigo

“Eu acho que se se é surrealista, não é porque se pinta uma ave, ou um porco de pernas para o ar. É-se surrealista porque se é surrealista!”

“[o amor] É a única coisa que há para acreditar. O único contacto que temos com o sagrado. As igrejas apanharam o sagrado e fizeram dele uma coisa muito triste, quando não cruel. O amor é o que nos resta do sagrado.”

“Sou um poeta bastante sofrível numa época em que o tecto está muito baixo.”

Cesariny (citações de Verso de Autografia, ed. Assírio e Alvim)


by L.

Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração
. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo
. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore
. Ou um filão ardido de ponto a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco
. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte
. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.


Herberto Hélder

PHOTOMATON & VOX
Assírio & Alvim
1995

Jardim Bordalo Pinheiro

Author: Vanessa Pelerigo

Quando tiver um tempinho livre (e ausência acentuada de preguiça) tentarei publicar aqui no blogue uma mini crítica a todos estes filmes. Nothing special. Apenas uma nota de referência. For the record.

Haneke começou a realizar na Alemanha Ocidental nos anos 70. A sua primeira longa-metragem foi “O Sétimo Continente” (1989), um filme que eu achei particularmente devastador e mais não é que um cuidado ensaio sobre a monotonia da vida moderna e o papel do suicídio. “Funny Games” (1997) foi também um filme interessante, amplamente discutido quanto aos limites a que levou o cinema. O supra sumo do niilismo da violência. “A Pianista” (2001) impressionou-me a diferentes níveis de tão perturbadora que era a história, mas ainda assim fascinou-me sobremaneira. O que todos estes filmes têm de denominador comum é serem obras de grande violência, física e emocional (sobretudo emocional).
E o “Laço Branco” não foge a essa realidade. Este mais recente filme de Michael Haneke é um filme duro, é qualquer coisa de majestoso. Um realismo sublime a preto e branco, num retrato cru e duro da inocência perdida (com um narrador idoso, em voz-off, a contar o que lhe aconteceu na juventude). As elipses são profundamente hábeis, inteligentes, a ausência total de música (salvo quando as personagens entram em cena) num rigor imponente apontam o essencial, num expressionismo pessimista, numa ruralidade deprimida e protestante. Uma clareza que desvenda algumas verdades, mas, também, paradoxalmente e sobretudo, serve para confundir a maneira de se olhar. Só insinuações, sem respostas.
Um quadro ostensivo, austero, nas vésperas da I Guerra Mundial, numa pacata aldeia do norte da Alemanha, Eichwald, que se vê agitada nos mistérios de uma série de crimes cruéis, bizarros que acabam por expor a verdadeira natureza dos habitantes. Os fantasmas, os criminosos, as diferentes teias narrativas eivadas de múltiplas leituras tridimensionais - como “Avatarnunca terá…

No centro da acção, está um peculiar grupo de crianças. O subtítulo do filme diz que esta é “uma história de crianças” que revela muito sobre os adultos. As crianças servem de exemplo da prática do bem e até usam laços brancos, em sinal de pureza. Mas, não nos podemos esquecer do mais importante: o que não se vê pode ser ainda mais assustador do que o que se vê. Nada é absolutamente linear, o mal absoluto não existe e o que impera é o mal estar social. Uma coisa é evidente em relação ao contexto histórico do filme e a época determinante na história da Alemanha. Trata-se de um país prestes a entrar numa guerra que resultaria em milhões de mortos e na humilhante derrota da Alemanha. Numa Alemanha que foi castigada em Versailles e que instaurou o regime nazi. Essa guerra seria protagonizada por jovens que um dia foram crianças. As crianças que vemos neste filme, e que no fundo são a sua essência, serão jovens adultos durante o Terceiro Reich, jovens que desenterraram as raízes do mal da sua infância. E pelas suas atitudes rígidas e rostos inexpressivos, vemos neles futuros simpatizantes Nazis.
O que o filme nos mostra é a forma como a educação moldada em superioridade moral, preconceito e medo pode causar no futuro. Não só o desenvolvimento de ideias fascistas como também, possivelmente, o extremismo religioso por detrás do terrorismo dos nossos dias. No entanto, apesar deste enfoque, o filme não deve ser apenas visto na dimensão social da época em questão. Há coisas que são transversais no tempo: a crueldade, o pessimismo em relação às pessoas ou, atrevo-me, a simples realidade da condição humana. Desencantada.

Depois do tabagismo (”Obrigado por Fumar”, 2005) e da gravidez adolescente (”Juno”, 2008), Reitman volta a abordar mais um tema na ordem do dia - o desemprego. Já lá vão uns anos desde que “Juno” chegou às salas de cinema e fez um brilharete perante a crítica e o público e, agora, o que esperar?
O argumento de “Up In The Air” é baseado no homónimo romance literário de Walter Kirn e explora questões fulcrais da sociedade contemporânea, nomeadamente a instabilidade financeira dos mercados económicos, já que o mundo está a passar por um momento onde esta história não podia ser a mais dura das realidades. Apesar da importância do tema abordado não consegui ao longo de todo o filme sentir mais do que um drama empresarial agridoce, exactamente pelo facto de não ser dramaticamente excepcional. Sinto-me quase como Ryan Bingham (George Clooney) perante os despedimentos que nos vão sendo apresentados. Não há emoção, tudo é mecânico, sincopado, previamente estudado. Não há surpresas. E isso desagradou-me em parte. Afinal de contas, o clima de insegurança financeiro que domina a agenda informativa contemporânea e que é espelhado nos rostos de milhares de pessoas nos telejornais diários com as suas graves repercussões tem, no mínimo, de provocar alguma comoção. Provavelmente, o problema é meu e não consegui encarar com a necessária humanidade a comunicação de um indivíduo perante outro, informando-o que está no desemprego. Portanto, num filme em que se critica a ausência de ligação emocional entre seres humanos num mundo cada vez mais globalizado parece-me que aquele deveria, pelo menos, causar esse mal-estar no espectador que assiste sem poder fazer nada. Mas, a verdade é que em momento nenhum do filme me preocupei com aquelas pessoas. O argumento releva isso para segundo plano. O que está verdadeiramente em causa não é o problema do desemprego ou do progressivo escudar das empresas, públicas e privadas, em sistemas virtuais de relação com os seus empregados. O que está em cima da mesa é saber: quanto pesa a nossa vida?
Não pensem que com o que disse até aqui não gostei do filme, pois gostei bastante do mesmo, mas não me parece que “Nas Nuvens” seja um filme destacável por inexcedíveis qualidade técnicas. Contém sim uma história provavelmente muito real, crua.
Ryan Bingham (George Clooney) é um quarentão empedernido, a esbanjar charme e elegância, e com fobia ao compromisso. A sua especialidade é despedir pessoas, reformulando as necessidades empresariais com vista à maximização de recursos. Por isso, está sempre a viajar em trabalho, de avião, facto que aproveita para coleccionar milhas aéreas (só num ano passou 322 dias a viajar e voou 350 mil milhas. Nota: da Terra à Lua distam 250 mil milhas…). Porém, quando está prestes a atingir o objectivo dos dez milhões de milhas eis quando entram em cena, precisamente, duas novas mulheres que arrasam o seu estilo de vida: uma por querer implementar um novo sistema de despedimento à distância, poupando à empresa combustível, reservas de hotel e despesas de representação. Outra por quem este homem se apaixona e talvez seja tão descomprometida por natureza quanto ele. Clooney e Vera Farmiga são excelentes nos papéis.
A ideia de estar confinado a um escritório seria a mais aterradora de toda a sua carreira, não fosse algo ter mudado. Ryan é um profissional de sucesso, que transporta o seu mundo numa mala de viagem. Esta é também a analogia a que recorre para um workshop que criou e que inicia com uma questão difícil: quanto pesa a vossa vida?

Posto isto: quanto pesa?

Falar dos filmes de Eastwood é-me muito complicado e cada vez mais difícil. Tenho desenvolvido por este realizador um amor devoto e fiel. Como se devem recordar, há cerca de um ano estreava “Gran Torino” e “A Troca”. “Gran Torino” foi para mim a cereja no topo do bolo. Um filme belíssimo, comovente, numa interpretação fantástica do próprio Clint, uma banda sonora delicada e, ao mesmo tempo, pungente.
Quando ouvi falar de “Invictus” fiquei curiosa e muito expectante e, por isso, mal tive a possibilidade de ter o filme deliciei-me. É verdade que este não é o seu melhor filme. É verdade que Clint Eastwood já nos deu obras maiores do que “Invictus”, mais intensas, mais carismáticas, mas este é provavelmente o seu filme mais esperançoso. E perante o mundo actual é bom podermos ver um filme que nos faça desejar algo melhor. E, sobretudo, sentir que é possível.
“Invictus” é um filme escrito por Anthony Peckham, baseado na obra literária de John Carlin intitulada de ‘Playing the Enemy: Nelson Mandela and the Game That Made a Nation’. É um hino importantíssimo à humanidade e, obviamente, a Mandela. Uma história sobre a reconstrução de um país, sobre o perdão, que através do desporto dá o seu primeiro passo em direcção à paz e união entre Sul-Africanos. A obra por si só, é inspirada na história verdadeira de Nelson Mandela, aquando da sua libertação em 1990, depois de 3 décadas encarcerado na prisão de Robben Island. Mandela foi eleito presidente da África do Sul em 1994, nas primeiras eleições livres do país, e foi um dos principais opositores ao regime do Apartheid que assolava a nação Sul-Africana. O seu ideário político visava uma nação unida, sem discriminação na raça, crenças, ou religião, rumo à “nação arco-íris”. Quando Nelson Mandela conquistou a presidência sabia que esta mudança puramente formal não era suficiente para extinguir os ódios enraizados durante décadas. O seu esforço orientou-se no sentido de unir negros e brancos através de algo que pudesse encarnar a alma nacional: o desporto. Num golpe de génio, viu na final da Taça Mundial de Râguebi de 1995 a oportunidade única para pôr em prática o seu plano. 1995 seria o ano em que o râguebi uniu um país dividido pela raça, pelo ódio e pela economia.
A opção por se focar num momento de Nelson Mandela confirmou-se como acertada. Ao invés de um previsível épico sobre o ícone em construção, Morgan Freeman capta a essência da figura num momento da História. E fá-lo ao ponto de ser difícil imaginar algum actor tão indicado para o papel - um trabalho magistralmente interpretado! Qual professor, Mandela dá-nos uma lição de paz. Há aqui desporto e política, mas o filme não é sobre nenhuma dessas coisas. Afinal, “Invictus” é um filme sobre o poder da poesia. Sobre o poder avassalador das palavras nos homens. Pelo menos, em alguns.
“Invictus”, título do filme, é um poema de William Ernest Henley, o qual serviu de inspiração enquanto Nelson Mandela esteve preso:

Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

As intenções do presidente eram nobres, mas a situação no país não seria tão facilmente controlada. François Pienaar, o capitão dos Springboks, a selecção Sul-Africana de râguebi farto das sucessivas derrotas, vê em Mandela um exemplo exímio de como conseguir unir a sua equipa rumo à vitória. Mandela vê em Pienaar o líder necessário para inspirar confiança a uma equipa que poderá ter uma influência esmagadora nos problemas sociais do país.
A força do desporto no mundo é por de mais evidente. A sua projecção e impacto é quase assustadora. Vejamos os ataques nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972. O Massacre de Munique teve lugar durante os Jogos Olímpicos de Verão de 1972 quando, a 5 de Setembro, 11 membros da equipa olímpica de Israel foram tomados reféns pelo grupo terrorista palestino denominado Setembro Negro. Vejamos, também, a investida das forças rebeldes da província de Cabinda, na Taça das Nações Africanas ainda a decorrer em Angola.
O triunfo em campo dos Springboks não curou o racismo. Mas por momentos foi capaz de o pôr de parte. E se ao menos pudesse ser assim mais vezes…

“Van Diemen’s Land” chegou-me aos olhos por acaso e foi uma agradável surpresa, apesar de ser tudo menos um filme “agradável”. Do estreante Jonathan auf der Heide, o filme conta a história verdadeira sobre um grupo de presos, no início dos anos de 1800, que está a trabalhar na ilha que mais tarde seria chamada Tasmânia. O primeiro europeu a avistar a Tasmânia de maneira comprovada foi o explorador neerlandês Abel Tasman, em 24 de Novembro de 1642, que chamou a ilha de Anthoonij van Diemenslandt, em homenagem a seu patrocinador, o Governador das Índias Orientais Holandesas. O nome foi mais tarde encurtado para Van Diemens Land pelos britânicos. Os primeiros colonos eram na grande maioria presidiários e os seus guardas militares, com a missão de desenvolver a agricultura e outras actividades. Diversas outras colónias penais foram estabelecidas em Van Diemens Land, incluindo prisões secundárias, como as particularmente severas colónias penais de Port Arthur no sudeste e Macquarie Harbour na costa oeste. Van Diemens Land foi proclamada uma colónia à parte da Nova Gales do Sul, com o seu próprio sistema judiciário e conselho legislativo, em 3 de Dezembro de 1825.
Em 1822, Alexander Pearce (Oscar Redding) e outros sete condenados escaparam de Macquarie Harbour, o lugar reservado para os piores criminosos. No início, os homens apreciam a sua liberdade repentina, mas quando o alimento se esgota as tensões aumentam e algumas alianças são formadas. A verdade é que os homens escaparam de uma prisão para entrarem numa pior que parece ser interminável e muito mais perigosa. Alguns deles decidem que o mais fraco do grupo deve ser oferecido para o resto. Verdadeiramente perturbador. As cenas de violência levam quase ao vómito de tão reais. O sangue, a carne, a pele, os ossos.
Para além das grandes actuações do elenco, a paisagem é das coisas mais impressionantes, perfeitamente captada pela direcção de fotografia de Ellery Ryan. A ausência de música, só o som natural das coisas, os arbustos, os pés na lama, o corpo a entrar na água, os diálogos condensados, levam ao isolamento total desses personagens presos numa prisão aberta. A vastidão é assustadora.
Alexander Pearce acaba por ser o único sobrevivente e descobre no canibalismo a beleza da morte. Quando foi recapturado contou uma macabra história de como sobreviveu no limite da fome. Foi considerado louco até que alguns factos indicaram a veracidade no que relatou.

Sabor do CINEMA - Momento XVII

Author: Vanessa Pelerigo

31 Jan - 28 Fev 2010 - AUDITÓRIO DE SERRALVES

Atravessado pela longa sombra de certos desaparecimentos recentes - Llansol, Bausch, Cunningham -, cujo penoso luto algumas imagens luminosamente resgatam, mas também debruado por inquietudes fora do baralho finito das coisas da vida - Paulo Rocha, Christian Boltanski, Luis Buñuel, Saguenail - que desaguam em outras tantas explosões das formas cinematográficas, este MOMENTO XVII do ciclo O SABOR DO CINEMA oferece-se aos espectadores fiéis das projecções-conversa e a todos os que desejavelmente passarão a frequentar as nossas sessões como uma colecção de gestos radicais. Despretensiosa mas ambiciosamente, propomo-nos fazer dialogar o artifício de uma Lisboa retratada como uma república crepuscular na RAIZ DO CORAÇÃO com esse derradeiro esgar do expressionismo alemão que suporta O LAMENTO DA IMPERATRIZ, cruzar o encarceramento no mal-estar burguês encenado no ANJO EXTERMINADOR com as paredes de um apartamento deserto a que O APARTAMENTO DA RUA DE VAUGIRARD dá a palavra. Mas também acompanhar o processo de interrogação das figuras que, muito diferentemente, objectos como MA’S SIN e CHANGING STEPS ousam.


(da exposição “Escritos de Artistas” @ Biblioteca de Serralves, 2008)

Convexo

Author: Vanessa Pelerigo

Convexo (2007) foi o 3º disco de Jacinta e o seu primeiro sem o selo da gigante Blue Note. Jacinta canta Zeca Afonso acompanhada por Rui Caetano no piano e Bruno Pedroso na bateria. Em “Convexo”, as canções do grande poeta são encaradas de uma forma livre, ajustadas à linguagem do jazz.


(a qualidade do vídeo não é grande coisa, o que é uma pena, mas façam favor de ir descobrir este cd)

Primeiro, foi o tributo à blues-woman Bessie Smith (2003), produzido por Laurent Filipe, onde trabalhou com músicos portugueses (tive o prazer de assistir a um concerto fabuloso, na Aula Magna, em 2001 se a memória não me falha). Depois, em “Day Dream” (2006), cantou vários compositores, alguns deles lusófonos, e contou com a participação de conceituados músicos estrangeiros. O seu mais recente trabalho é “Songs Of Freedom” (2009) com célebres temas dos anos 60, 70 e 80, de artistas, como Ray Charles, Stevie Wonder, James Brown, Nina Simone, Bob Marley, The Beatles, U2, entre outros.

Um dos livros mais emblemáticos e mais lidos de Vergílio Ferreira, com uma capa especial comemorativa dos 50 anos da sua primeira edição.

Sento-me aqui nesta sala vazia e relembro. Uma lua quente de verão entra pela varanda, ilumina uma jarra de flores sobre a mesa. Olho essa jarra, essas flores, e escuto o indício de um rumor de vida, o sinal obscuro de uma memória de origens. No chão da velha casa a água da lua fascina-me. Tento, há quantos anos, vencer a dureza dos dias, das ideias solidificadas, a espessura dos hábitos, que me constrange e tranquiliza.

in Aparição

Gonçalo Duarte e o KWY

Author: Vanessa Pelerigo

São conhecidos os portos principais da aventura pessoal e poética de Gonçalo Duarte (Lisboa, 1935 – Paris, 1986) e os pormenores mais anedóticos ou visíveis dessa aventura; menos conhecidos, porém, ficaram o navio e os mares e as tragédias dessa aventura, por eles pertencerem à obscuridade impenetrável do abismo de “metal fundente”.

Mário Cesariny, Catálogo da Exposição do Centro de Estudos do Surrealismo, Maio/Agosto de 2005

@ CCB - Colecção Berardo


Catálogo Exposição KWY, Paris, 1958-1968


Catálogo Exposição KWY, Paris, 1958-1968


Catálogo Exposição KWY, Paris, 1958-1968

“Gonçalo Duarte – Obra plástica” @ Palácio Galveias (Fev. 2007)

Pomar

Author: Vanessa Pelerigo

É preciso acompanhá-lo, na verdade, desde o princípio, para se perceber inteiramente a magnífica serenidade e certeza que há na sua evolução. É preciso ter-lhe lido os artigos e ter-lhe acompanhado os passos – vendo o sonho e a vida sadiamente unidos, para se apreender até ao fundo o sentido de coerência e riqueza de que se põe ao artista adulto dos nossos dias e que ele próprio definiu desta maneira: “factos ocorrendo entre homens comuns, narrados em linguagem comum”.

Mário Dionísio acerca de Júlio Pomar, 1948.

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.
de O Outro Nome da Terra

Eugénio de Andrade

5 Fev a 21 Mar 10 @ Palácio Galveias

Eurico Gonçalves (n. 1932, Penafiel) pintor e crítico de arte fez a sua aprendizagem da Arte e da Pintura de uma forma autodidacta, mas também através da sua proximidade com Jean Degottex, na década de 1960, em Paris. A juventude do artista foi marcada pela ética dos surrealistas na vertente do fantástico originária das teorias freudianas, evoluindo depois para um abstraccionismo não-geométrico e gestual, que valoriza a mancha e o traço livre. A tela é um ecrã onde se projectam as imagens de um sonhador acordado. Foi também alvo da influência da poesia de Mário de Sá-Carneiro e tem publicado vários artigos que versam sobre temáticas como a expressão plástica das crianças, o dadaísmo, a filosofia zen ou a escrita. Refira-se ainda a realização da conferência de Rui Mário Gonçalves sobre Eurico Gonçalves, no dia 27 de Fevereiro, pelas 16h, no Palácio Galveias, Campo Pequeno.

Galeria do Palácio Galveias
Campo Pequeno
Horários: Ter a Sex: 10h-19h; Sáb, Dom: 14h-19h
Telefone: 217 803 043
Acessos: Metro: Campo Pequeno

Relembrando:
Fundação Cupertino de Miranda, Vila Nova de Famalicão (2007)

Ladrão

Author: Vanessa Pelerigo

Apetece-me tanto um cigarro. Daqueles slims da Vogue para fumar um atrás do outro sem sentir a nicotina entranhar-se nos pulmões, só o sabor aveludado do tabaco a mastigar-me a boca e o fumo a inflamar-me os olhos. É que me apetece mesmo um cigarro e um copo cheio de álcool. Pode ser absinto. Afinal de contas, Verlaine, Rimbaud, Baudelaire, Toulouse-Lautrec, van Gogh, Wilde, não podem estar errados. Preciso de qualquer coisa para me queimar a garganta por dentro até ao desmaio. Um cigarro entrelaçado nos dedos, enquanto escrevo. Inalo. Expiro. Engulo. Com o sangue escrevo na folha.
Escolho uma música que traga alguma paz aos meus desassossegos ou que os grite até à explosão. Pode ser esta. A vida é muito mais David Lynch do que se pensa. Anões, veludos, estradas escuras, acidentes impossíveis, canções dilacerantes, sonhos e desgostos, morte, perversidade, amores trocados, lágrimas que escorrem cara abaixo, vícios. E a vida é assim mesmo. Coincidências, acasos, escolhas conscientes, luta e rendição. Às vezes tudo é uma causa perdida. Noutras, alguém nos lembra porque tudo vale a pena.
Conheci poucos amores, algumas paixões, que me conseguiste mostrar serem um total equívoco. Uns desperdícios completos, um perder de tempo precioso, que me deram muito menos do que um esgar qualquer do teu sorriso. Já é tarde para salvar mais do que o corpo. E o que é o meu corpo? Para dizer a verdade, já não sei onde acaba o meu e onde começa o nosso. A junção é tão perfeita que se me faltas mais a tua ausência me cerca.
Nada apaga as labaredas que me lambem a alma que se perdeu algures de amor por ti e eu fiz-te perder uma série de coisas, certamente, no entretanto. Mas, depois penso na tua pele marcada pela idade e apetece-me beijá-la minuto após minuto. Cercar-te com os meus braços e apertar-te até ficar sem forças. Não me arrependo nada de ter-te meu para sempre. Será tarde quando me lembrar de não parar. Quantos pacotes de juventude me restam até morrer? Quantas noites de amor? Quantos dias, quantos beijos? Amo-te, e gosto de o dizer. Gosto de dizer a toda a gente de quem gosto e de quem não gosto. Não se deve calar o que nos faz viver. Seria um desrespeito. Se não fosses importante escondia-te, serias segredo, clandestino, a minha puta privada. Mas não. És tudo. És tudo o que me incendeia. As chamas que ateaste por debaixo do coração, cheio de nada e de tanto, não são de mais. Preciso delas. São como um soco na nuca, que me obrigam a sentir toda a dor e o prazer.
Roubaste aos homens, a todos os outros homens do mundo, todo o desejo capaz de me ausentar do resto da vida. Ladrão. E, agora, toda a minha vida está nas tuas mãos. Promete que a tratas com o mesmo desvelo com que eu trato a pele do teu corpo, embrulhada em beijos e ternura. E amor.

Vanessa Pelerigo

Invictus

Author: Vanessa Pelerigo

Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

William Henley (the English poet wrote Invictus in 1875 from his hospital bed after his leg was amputated in his lifelong battle against tuberculosis of the bone)

Piensa en Mí

Author: Vanessa Pelerigo

Si tienes un hondo penar, piensa en mí:
si tienes ganas de llorar, piensa en mí.
Ya ves que venero tu imagen divina,
tu párvula boca que siendo tan niña
me enseño a pecar.
Piensa en mí cuando sufras, cuando llores
también piensa en mí, cuando quieras
quitarme la vida, no lo quiero para nada,
para nada me sirve sín tí.


Jascha Heifetz, in the 1947 film, Carnegie Hall, performing an abridged version of the first movement of Tchaikovsky’s violin concerto, with the orchestra led by Fritz Reiner.

David Lynch

Author: Vanessa Pelerigo

Blue Velvet

Frank Booth: Baby wants to fuck! Baby wants to fuck Blue Velvet!

Mulholland Dr.

Betty Elms: [after kissing Rita] Have you ever done this before?
Rita: I don’t know. Have you?
Betty Elms: I want to with you.

Twin Peaks

Dale Cooper: Harry, I have no idea where this will lead us, but I have a definite feeling it will be a place both wonderful and strange.

10

Author: Vanessa Pelerigo

To hell whith small literature
We want something redblooded

E.E.Cummings, 1935

Abro as mãos em poema e todo o meu corpo é um pássaro. Quando te vejo há coisas dentro de mim que sossegam. Fantasmas, arquivos mortos e pó de tempo esquecido, deixado ao acaso nas veias e nos músculos. Dou comigo demasiadas vezes a perguntar o que és realmente para mim e não consigo com a força das palavras chegar a uma conclusão do que sinto cá dentro. Quero rir e amar-te como nunca conseguirei. Talvez no meu sorriso tu percebas que nunca ninguém foi mais capaz de te amar. Talvez com o brilho de todas as constelações nos olhos, um dia te agradeça por me teres dado toda a felicidade que me foi reservada quando nasci. Quando, pela primeira vez, chorei para dizer ao mundo aqui estou. A esconder o sangue que me fervia na cara. Nunca serão suficientes as vezes que te vejo, é certo e sabido.
És perfeito. E eu imagino a vestires o peito, a pores perfume na pele, a compores a camisa, o pulover, a ajeitares o cabelo. Cortaste o cabelo com a mesma tesoura com que me cortaste a respiração, mal te vi. Arde-me o corpo de  pensar nisso. É possível estar apaixonado durante muito mais do que o razoável. Há fogos na ponta dos teus dedos sempre que me beijas a pele. Lembro-te que para além de tudo, de todo o amor, existem os nossos corpos solitários. Prefiro-os juntos.
Devia matar-me ou morrer já. Apaixonares-te por mim é quase uma irresponsabilidade porque és o homem para sempre. O teu peito esmaga-me o coração e o juízo sem sair do mesmo sítio. Apetece tanto tocar-me à tua frente com aquelas meias de má fama e com aqueles sapatos que me estrangulam o fim da perna e está frio. Tanto frio. Gostava que ele não me enlouquecesse ainda mais quando te vir a despir as calças. Estou encharcada de desejo, com o sorriso inocente perante o tamanho da vontade impossível. Despe-te e faz jus aos filmes que viste. Amo-te tanto que acho que vou explodir. Que a sofreguidão me faça tropeçar com todas estas vontades nos teus abraços. Nunca pensei que fosses tu a mandar-me para a fogueira. Estou infinitamente feliz.

Vanessa Pelerigo


Henri Cartier-Bresson

Vadú (1977-2010)

Author: Vanessa Pelerigo

Light My Fire

Author: Vanessa Pelerigo

A princípio não te vi: não soube que ias comigo, até que as tuas raízes atravessaram o meu peito, se uniram aos fios do meu sangue, falaram pela minha boca, floresceram comigo.

Pablo Neruda

Já disse tudo, perceberam? Não há aqui nada de novo. Direi sempre o amor com o coração na boca, com as tripas à vista. Não há nada que me faça mais completa que sentir o peito quente de ternura, de olhar só com a alma a voz do corpo. Desconfio que os dias de chuva são um disfarce de compaixão para as saudades e para o medo. Na infância, lembro-me de tapar a cabeça com o lençol e pensar que estava no melhor esconderijo do mundo. Sentia-me protegida contra luzes e sombras. Contra monstros e fantasmas. Agora, só te imagino dentro da minha cama encarnado de vergonha num arrepio ao rubro. A tua boca de incêndio lambe-me o juízo e as chamas.

Vanessa Pelerigo

Salò o le 120 giornate di Sodoma

Author: Vanessa Pelerigo


…e allora mangia la merda.