Feb
9
2010
Feb
9
2010
Feb
8
2010
Feb
8
2010
Feb
6
2010
A zarzuela, com origem em meados do século XVII, faz parte da memória colectiva dos espanhóis. Neste concerto é apresentada uma antologia deste género musical, incluindo obras e autores fundamentais na história da zarzuela. O repertório visa recriar os ambientes dos bairros de Madrid (onde muita desta música nasceu e se inspirou) e retratar diferentes épocas, personagens e episódios.
Feb
6
2010
Every everything
Everything is new
Every everything
Everything is new
Every everything
Everything is newI cried everything
Everything is new
I cried everything
Everything is new
Every everything
Everything is newAntony and the Johnsons
Dir-te-ia qualquer coisa nova, bela, se nos meus olhos, se no meu corpo, não tivesses visto tudo o que me faz viver.
És o meu Porto.
V.
Amar é dar, derramar-me num vaso que nada retém e sou um fio de cana por onde circulam ventos e marés. Amar é aspirar as forças generosas que me rodeiam, o sol e os lumes, as fontes ubérrimas que vêm do fundo e do alto, água e ar, e derramá-las no corpo irmão, no cadinho que tudo guarda e transforma para que nada se perca e haja um equilíbrio perfeito entre o mesmo e o outro que tu iluminas. Dar tudo ao outro, dar-lhe tanta verdade quanta ele possa suportar, e mais e mais; obrigar o outro a elevar-se a um grau superior de eminência, fulguração, mas não tanto que o fira ou destrua em overdose que o leve a romper o contrato — o difícil equilíbrio dos amantes! Amar é raro porque poucos somos capazes de respirar as vastas planícies com a metade do seu pulmão; e amar é raro porque poucos aceitam a presença do seu gémeo, a boca insaciável de um irmão que todos os dias o vento esculpe e destrói.
Casimiro de Brito, in ‘Arte da Respiração’
Feb
1
2010
“Eu acho que se se é surrealista, não é porque se pinta uma ave, ou um porco de pernas para o ar. É-se surrealista porque se é surrealista!”
“[o amor] É a única coisa que há para acreditar. O único contacto que temos com o sagrado. As igrejas apanharam o sagrado e fizeram dele uma coisa muito triste, quando não cruel. O amor é o que nos resta do sagrado.”
“Sou um poeta bastante sofrível numa época em que o tecto está muito baixo.”
Cesariny (citações de Verso de Autografia, ed. Assírio e Alvim)
Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.
Herberto Hélder
PHOTOMATON & VOX
Assírio & Alvim
1995
Jan
29
2010
Jan
29
2010
Quando tiver um tempinho livre (e ausência acentuada de preguiça) tentarei publicar aqui no blogue uma mini crítica a todos estes filmes. Nothing special. Apenas uma nota de referência. For the record.
Haneke começou a realizar na Alemanha Ocidental nos anos 70. A sua primeira longa-metragem foi “O Sétimo Continente” (1989), um filme que eu achei particularmente devastador e mais não é que um cuidado ensaio sobre a monotonia da vida moderna e o papel do suicídio. “Funny Games” (1997) foi também um filme interessante, amplamente discutido quanto aos limites a que levou o cinema. O supra sumo do niilismo da violência. “A Pianista” (2001) impressionou-me a diferentes níveis de tão perturbadora que era a história, mas ainda assim fascinou-me sobremaneira. O que todos estes filmes têm de denominador comum é serem obras de grande violência, física e emocional (sobretudo emocional).
E o “Laço Branco” não foge a essa realidade. Este mais recente filme de Michael Haneke é um filme duro, é qualquer coisa de majestoso. Um realismo sublime a preto e branco, num retrato cru e duro da inocência perdida (com um narrador idoso, em voz-off, a contar o que lhe aconteceu na juventude). As elipses são profundamente hábeis, inteligentes, a ausência total de música (salvo quando as personagens entram em cena) num rigor imponente apontam o essencial, num expressionismo pessimista, numa ruralidade deprimida e protestante. Uma clareza que desvenda algumas verdades, mas, também, paradoxalmente e sobretudo, serve para confundir a maneira de se olhar. Só insinuações, sem respostas.
Um quadro ostensivo, austero, nas vésperas da I Guerra Mundial, numa pacata aldeia do norte da Alemanha, Eichwald, que se vê agitada nos mistérios de uma série de crimes cruéis, bizarros que acabam por expor a verdadeira natureza dos habitantes. Os fantasmas, os criminosos, as diferentes teias narrativas eivadas de múltiplas leituras tridimensionais - como “Avatar” nunca terá…
No centro da acção, está um peculiar grupo de crianças. O subtítulo do filme diz que esta é “uma história de crianças” que revela muito sobre os adultos. As crianças servem de exemplo da prática do bem e até usam laços brancos, em sinal de pureza. Mas, não nos podemos esquecer do mais importante: o que não se vê pode ser ainda mais assustador do que o que se vê. Nada é absolutamente linear, o mal absoluto não existe e o que impera é o mal estar social. Uma coisa é evidente em relação ao contexto histórico do filme e a época determinante na história da Alemanha. Trata-se de um país prestes a entrar numa guerra que resultaria em milhões de mortos e na humilhante derrota da Alemanha. Numa Alemanha que foi castigada em Versailles e que instaurou o regime nazi. Essa guerra seria protagonizada por jovens que um dia foram crianças. As crianças que vemos neste filme, e que no fundo são a sua essência, serão jovens adultos durante o Terceiro Reich, jovens que desenterraram as raízes do mal da sua infância. E pelas suas atitudes rígidas e rostos inexpressivos, vemos neles futuros simpatizantes Nazis.
O que o filme nos mostra é a forma como a educação moldada em superioridade moral, preconceito e medo pode causar no futuro. Não só o desenvolvimento de ideias fascistas como também, possivelmente, o extremismo religioso por detrás do terrorismo dos nossos dias. No entanto, apesar deste enfoque, o filme não deve ser apenas visto na dimensão social da época em questão. Há coisas que são transversais no tempo: a crueldade, o pessimismo em relação às pessoas ou, atrevo-me, a simples realidade da condição humana. Desencantada.
Depois do tabagismo (”Obrigado por Fumar”, 2005) e da gravidez adolescente (”Juno”, 2008), Reitman volta a abordar mais um tema na ordem do dia - o desemprego. Já lá vão uns anos desde que “Juno” chegou às salas de cinema e fez um brilharete perante a crítica e o público e, agora, o que esperar?
O argumento de “Up In The Air” é baseado no homónimo romance literário de Walter Kirn e explora questões fulcrais da sociedade contemporânea, nomeadamente a instabilidade financeira dos mercados económicos, já que o mundo está a passar por um momento onde esta história não podia ser a mais dura das realidades. Apesar da importância do tema abordado não consegui ao longo de todo o filme sentir mais do que um drama empresarial agridoce, exactamente pelo facto de não ser dramaticamente excepcional. Sinto-me quase como Ryan Bingham (George Clooney) perante os despedimentos que nos vão sendo apresentados. Não há emoção, tudo é mecânico, sincopado, previamente estudado. Não há surpresas. E isso desagradou-me em parte. Afinal de contas, o clima de insegurança financeiro que domina a agenda informativa contemporânea e que é espelhado nos rostos de milhares de pessoas nos telejornais diários com as suas graves repercussões tem, no mínimo, de provocar alguma comoção. Provavelmente, o problema é meu e não consegui encarar com a necessária humanidade a comunicação de um indivíduo perante outro, informando-o que está no desemprego. Portanto, num filme em que se critica a ausência de ligação emocional entre seres humanos num mundo cada vez mais globalizado parece-me que aquele deveria, pelo menos, causar esse mal-estar no espectador que assiste sem poder fazer nada. Mas, a verdade é que em momento nenhum do filme me preocupei com aquelas pessoas. O argumento releva isso para segundo plano. O que está verdadeiramente em causa não é o problema do desemprego ou do progressivo escudar das empresas, públicas e privadas, em sistemas virtuais de relação com os seus empregados. O que está em cima da mesa é saber: quanto pesa a nossa vida?
Não pensem que com o que disse até aqui não gostei do filme, pois gostei bastante do mesmo, mas não me parece que “Nas Nuvens” seja um filme destacável por inexcedíveis qualidade técnicas. Contém sim uma história provavelmente muito real, crua.
Ryan Bingham (George Clooney) é um quarentão empedernido, a esbanjar charme e elegância, e com fobia ao compromisso. A sua especialidade é despedir pessoas, reformulando as necessidades empresariais com vista à maximização de recursos. Por isso, está sempre a viajar em trabalho, de avião, facto que aproveita para coleccionar milhas aéreas (só num ano passou 322 dias a viajar e voou 350 mil milhas. Nota: da Terra à Lua distam 250 mil milhas…). Porém, quando está prestes a atingir o objectivo dos dez milhões de milhas eis quando entram em cena, precisamente, duas novas mulheres que arrasam o seu estilo de vida: uma por querer implementar um novo sistema de despedimento à distância, poupando à empresa combustível, reservas de hotel e despesas de representação. Outra por quem este homem se apaixona e talvez seja tão descomprometida por natureza quanto ele. Clooney e Vera Farmiga são excelentes nos papéis.
A ideia de estar confinado a um escritório seria a mais aterradora de toda a sua carreira, não fosse algo ter mudado. Ryan é um profissional de sucesso, que transporta o seu mundo numa mala de viagem. Esta é também a analogia a que recorre para um workshop que criou e que inicia com uma questão difícil: quanto pesa a vossa vida?
Posto isto: quanto pesa?
Falar dos filmes de Eastwood é-me muito complicado e cada vez mais difícil. Tenho desenvolvido por este realizador um amor devoto e fiel. Como se devem recordar, há cerca de um ano estreava “Gran Torino” e “A Troca”. “Gran Torino” foi para mim a cereja no topo do bolo. Um filme belíssimo, comovente, numa interpretação fantástica do próprio Clint, uma banda sonora delicada e, ao mesmo tempo, pungente.
Quando ouvi falar de “Invictus” fiquei curiosa e muito expectante e, por isso, mal tive a possibilidade de ter o filme deliciei-me. É verdade que este não é o seu melhor filme. É verdade que Clint Eastwood já nos deu obras maiores do que “Invictus”, mais intensas, mais carismáticas, mas este é provavelmente o seu filme mais esperançoso. E perante o mundo actual é bom podermos ver um filme que nos faça desejar algo melhor. E, sobretudo, sentir que é possível.
“Invictus” é um filme escrito por Anthony Peckham, baseado na obra literária de John Carlin intitulada de ‘Playing the Enemy: Nelson Mandela and the Game That Made a Nation’. É um hino importantíssimo à humanidade e, obviamente, a Mandela. Uma história sobre a reconstrução de um país, sobre o perdão, que através do desporto dá o seu primeiro passo em direcção à paz e união entre Sul-Africanos. A obra por si só, é inspirada na história verdadeira de Nelson Mandela, aquando da sua libertação em 1990, depois de 3 décadas encarcerado na prisão de Robben Island. Mandela foi eleito presidente da África do Sul em 1994, nas primeiras eleições livres do país, e foi um dos principais opositores ao regime do Apartheid que assolava a nação Sul-Africana. O seu ideário político visava uma nação unida, sem discriminação na raça, crenças, ou religião, rumo à “nação arco-íris”. Quando Nelson Mandela conquistou a presidência sabia que esta mudança puramente formal não era suficiente para extinguir os ódios enraizados durante décadas. O seu esforço orientou-se no sentido de unir negros e brancos através de algo que pudesse encarnar a alma nacional: o desporto. Num golpe de génio, viu na final da Taça Mundial de Râguebi de 1995 a oportunidade única para pôr em prática o seu plano. 1995 seria o ano em que o râguebi uniu um país dividido pela raça, pelo ódio e pela economia.
A opção por se focar num momento de Nelson Mandela confirmou-se como acertada. Ao invés de um previsível épico sobre o ícone em construção, Morgan Freeman capta a essência da figura num momento da História. E fá-lo ao ponto de ser difícil imaginar algum actor tão indicado para o papel - um trabalho magistralmente interpretado! Qual professor, Mandela dá-nos uma lição de paz. Há aqui desporto e política, mas o filme não é sobre nenhuma dessas coisas. Afinal, “Invictus” é um filme sobre o poder da poesia. Sobre o poder avassalador das palavras nos homens. Pelo menos, em alguns.
“Invictus”, título do filme, é um poema de William Ernest Henley, o qual serviu de inspiração enquanto Nelson Mandela esteve preso:
Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.
In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.
Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.
It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.
As intenções do presidente eram nobres, mas a situação no país não seria tão facilmente controlada. François Pienaar, o capitão dos Springboks, a selecção Sul-Africana de râguebi farto das sucessivas derrotas, vê em Mandela um exemplo exímio de como conseguir unir a sua equipa rumo à vitória. Mandela vê em Pienaar o líder necessário para inspirar confiança a uma equipa que poderá ter uma influência esmagadora nos problemas sociais do país.
A força do desporto no mundo é por de mais evidente. A sua projecção e impacto é quase assustadora. Vejamos os ataques nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972. O Massacre de Munique teve lugar durante os Jogos Olímpicos de Verão de 1972 quando, a 5 de Setembro, 11 membros da equipa olímpica de Israel foram tomados reféns pelo grupo terrorista palestino denominado Setembro Negro. Vejamos, também, a investida das forças rebeldes da província de Cabinda, na Taça das Nações Africanas ainda a decorrer em Angola.
O triunfo em campo dos Springboks não curou o racismo. Mas por momentos foi capaz de o pôr de parte. E se ao menos pudesse ser assim mais vezes…
“Van Diemen’s Land” chegou-me aos olhos por acaso e foi uma agradável surpresa, apesar de ser tudo menos um filme “agradável”. Do estreante Jonathan auf der Heide, o filme conta a história verdadeira sobre um grupo de presos, no início dos anos de 1800, que está a trabalhar na ilha que mais tarde seria chamada Tasmânia. O primeiro europeu a avistar a Tasmânia de maneira comprovada foi o explorador neerlandês Abel Tasman, em 24 de Novembro de 1642, que chamou a ilha de Anthoonij van Diemenslandt, em homenagem a seu patrocinador, o Governador das Índias Orientais Holandesas. O nome foi mais tarde encurtado para Van Diemens Land pelos britânicos. Os primeiros colonos eram na grande maioria presidiários e os seus guardas militares, com a missão de desenvolver a agricultura e outras actividades. Diversas outras colónias penais foram estabelecidas em Van Diemens Land, incluindo prisões secundárias, como as particularmente severas colónias penais de Port Arthur no sudeste e Macquarie Harbour na costa oeste. Van Diemens Land foi proclamada uma colónia à parte da Nova Gales do Sul, com o seu próprio sistema judiciário e conselho legislativo, em 3 de Dezembro de 1825.
Em 1822, Alexander Pearce (Oscar Redding) e outros sete condenados escaparam de Macquarie Harbour, o lugar reservado para os piores criminosos. No início, os homens apreciam a sua liberdade repentina, mas quando o alimento se esgota as tensões aumentam e algumas alianças são formadas. A verdade é que os homens escaparam de uma prisão para entrarem numa pior que parece ser interminável e muito mais perigosa. Alguns deles decidem que o mais fraco do grupo deve ser oferecido para o resto. Verdadeiramente perturbador. As cenas de violência levam quase ao vómito de tão reais. O sangue, a carne, a pele, os ossos.
Para além das grandes actuações do elenco, a paisagem é das coisas mais impressionantes, perfeitamente captada pela direcção de fotografia de Ellery Ryan. A ausência de música, só o som natural das coisas, os arbustos, os pés na lama, o corpo a entrar na água, os diálogos condensados, levam ao isolamento total desses personagens presos numa prisão aberta. A vastidão é assustadora.
Alexander Pearce acaba por ser o único sobrevivente e descobre no canibalismo a beleza da morte. Quando foi recapturado contou uma macabra história de como sobreviveu no limite da fome. Foi considerado louco até que alguns factos indicaram a veracidade no que relatou.
Jan
29
2010
31 Jan - 28 Fev 2010 - AUDITÓRIO DE SERRALVES
Atravessado pela longa sombra de certos desaparecimentos recentes - Llansol, Bausch, Cunningham -, cujo penoso luto algumas imagens luminosamente resgatam, mas também debruado por inquietudes fora do baralho finito das coisas da vida - Paulo Rocha, Christian Boltanski, Luis Buñuel, Saguenail - que desaguam em outras tantas explosões das formas cinematográficas, este MOMENTO XVII do ciclo O SABOR DO CINEMA oferece-se aos espectadores fiéis das projecções-conversa e a todos os que desejavelmente passarão a frequentar as nossas sessões como uma colecção de gestos radicais. Despretensiosa mas ambiciosamente, propomo-nos fazer dialogar o artifício de uma Lisboa retratada como uma república crepuscular na RAIZ DO CORAÇÃO com esse derradeiro esgar do expressionismo alemão que suporta O LAMENTO DA IMPERATRIZ, cruzar o encarceramento no mal-estar burguês encenado no ANJO EXTERMINADOR com as paredes de um apartamento deserto a que O APARTAMENTO DA RUA DE VAUGIRARD dá a palavra. Mas também acompanhar o processo de interrogação das figuras que, muito diferentemente, objectos como MA’S SIN e CHANGING STEPS ousam.

(da exposição “Escritos de Artistas” @ Biblioteca de Serralves, 2008)
Jan
29
2010
Convexo (2007) foi o 3º disco de Jacinta e o seu primeiro sem o selo da gigante Blue Note. Jacinta canta Zeca Afonso acompanhada por Rui Caetano no piano e Bruno Pedroso na bateria. Em “Convexo”, as canções do grande poeta são encaradas de uma forma livre, ajustadas à linguagem do jazz.
(a qualidade do vídeo não é grande coisa, o que é uma pena, mas façam favor de ir descobrir este cd)
Primeiro, foi o tributo à blues-woman Bessie Smith (2003), produzido por Laurent Filipe, onde trabalhou com músicos portugueses (tive o prazer de assistir a um concerto fabuloso, na Aula Magna, em 2001 se a memória não me falha). Depois, em “Day Dream” (2006), cantou vários compositores, alguns deles lusófonos, e contou com a participação de conceituados músicos estrangeiros. O seu mais recente trabalho é “Songs Of Freedom” (2009) com célebres temas dos anos 60, 70 e 80, de artistas, como Ray Charles, Stevie Wonder, James Brown, Nina Simone, Bob Marley, The Beatles, U2, entre outros.
Jan
28
2010
Um dos livros mais emblemáticos e mais lidos de Vergílio Ferreira, com uma capa especial comemorativa dos 50 anos da sua primeira edição.
Sento-me aqui nesta sala vazia e relembro. Uma lua quente de verão entra pela varanda, ilumina uma jarra de flores sobre a mesa. Olho essa jarra, essas flores, e escuto o indício de um rumor de vida, o sinal obscuro de uma memória de origens. No chão da velha casa a água da lua fascina-me. Tento, há quantos anos, vencer a dureza dos dias, das ideias solidificadas, a espessura dos hábitos, que me constrange e tranquiliza.
in Aparição
Jan
28
2010
São conhecidos os portos principais da aventura pessoal e poética de Gonçalo Duarte (Lisboa, 1935 – Paris, 1986) e os pormenores mais anedóticos ou visíveis dessa aventura; menos conhecidos, porém, ficaram o navio e os mares e as tragédias dessa aventura, por eles pertencerem à obscuridade impenetrável do abismo de “metal fundente”.
Mário Cesariny, Catálogo da Exposição do Centro de Estudos do Surrealismo, Maio/Agosto de 2005

Catálogo Exposição KWY, Paris, 1958-1968

Catálogo Exposição KWY, Paris, 1958-1968

Catálogo Exposição KWY, Paris, 1958-1968
“Gonçalo Duarte – Obra plástica” @ Palácio Galveias (Fev. 2007)
Jan
27
2010
É preciso acompanhá-lo, na verdade, desde o princípio, para se perceber inteiramente a magnífica serenidade e certeza que há na sua evolução. É preciso ter-lhe lido os artigos e ter-lhe acompanhado os passos – vendo o sonho e a vida sadiamente unidos, para se apreender até ao fundo o sentido de coerência e riqueza de que se põe ao artista adulto dos nossos dias e que ele próprio definiu desta maneira: “factos ocorrendo entre homens comuns, narrados em linguagem comum”.
Mário Dionísio acerca de Júlio Pomar, 1948.
Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.
de O Outro Nome da Terra
Eugénio de Andrade
Jan
26
2010
5 Fev a 21 Mar 10 @ Palácio Galveias
Eurico Gonçalves (n. 1932, Penafiel) pintor e crítico de arte fez a sua aprendizagem da Arte e da Pintura de uma forma autodidacta, mas também através da sua proximidade com Jean Degottex, na década de 1960, em Paris. A juventude do artista foi marcada pela ética dos surrealistas na vertente do fantástico originária das teorias freudianas, evoluindo depois para um abstraccionismo não-geométrico e gestual, que valoriza a mancha e o traço livre. A tela é um ecrã onde se projectam as imagens de um sonhador acordado. Foi também alvo da influência da poesia de Mário de Sá-Carneiro e tem publicado vários artigos que versam sobre temáticas como a expressão plástica das crianças, o dadaísmo, a filosofia zen ou a escrita. Refira-se ainda a realização da conferência de Rui Mário Gonçalves sobre Eurico Gonçalves, no dia 27 de Fevereiro, pelas 16h, no Palácio Galveias, Campo Pequeno.
Galeria do Palácio Galveias
Campo Pequeno
Horários: Ter a Sex: 10h-19h; Sáb, Dom: 14h-19h
Telefone: 217 803 043
Acessos: Metro: Campo Pequeno
Relembrando:
Fundação Cupertino de Miranda, Vila Nova de Famalicão (2007)
Jan
22
2010
Apetece-me tanto um cigarro. Daqueles slims da Vogue para fumar um atrás do outro sem sentir a nicotina entranhar-se nos pulmões, só o sabor aveludado do tabaco a mastigar-me a boca e o fumo a inflamar-me os olhos. É que me apetece mesmo um cigarro e um copo cheio de álcool. Pode ser absinto. Afinal de contas, Verlaine, Rimbaud, Baudelaire, Toulouse-Lautrec, van Gogh, Wilde, não podem estar errados. Preciso de qualquer coisa para me queimar a garganta por dentro até ao desmaio. Um cigarro entrelaçado nos dedos, enquanto escrevo. Inalo. Expiro. Engulo. Com o sangue escrevo na folha.
Escolho uma música que traga alguma paz aos meus desassossegos ou que os grite até à explosão. Pode ser esta. A vida é muito mais David Lynch do que se pensa. Anões, veludos, estradas escuras, acidentes impossíveis, canções dilacerantes, sonhos e desgostos, morte, perversidade, amores trocados, lágrimas que escorrem cara abaixo, vícios. E a vida é assim mesmo. Coincidências, acasos, escolhas conscientes, luta e rendição. Às vezes tudo é uma causa perdida. Noutras, alguém nos lembra porque tudo vale a pena.
Conheci poucos amores, algumas paixões, que me conseguiste mostrar serem um total equívoco. Uns desperdícios completos, um perder de tempo precioso, que me deram muito menos do que um esgar qualquer do teu sorriso. Já é tarde para salvar mais do que o corpo. E o que é o meu corpo? Para dizer a verdade, já não sei onde acaba o meu e onde começa o nosso. A junção é tão perfeita que se me faltas mais a tua ausência me cerca.
Nada apaga as labaredas que me lambem a alma que se perdeu algures de amor por ti e eu fiz-te perder uma série de coisas, certamente, no entretanto. Mas, depois penso na tua pele marcada pela idade e apetece-me beijá-la minuto após minuto. Cercar-te com os meus braços e apertar-te até ficar sem forças. Não me arrependo nada de ter-te meu para sempre. Será tarde quando me lembrar de não parar. Quantos pacotes de juventude me restam até morrer? Quantas noites de amor? Quantos dias, quantos beijos? Amo-te, e gosto de o dizer. Gosto de dizer a toda a gente de quem gosto e de quem não gosto. Não se deve calar o que nos faz viver. Seria um desrespeito. Se não fosses importante escondia-te, serias segredo, clandestino, a minha puta privada. Mas não. És tudo. És tudo o que me incendeia. As chamas que ateaste por debaixo do coração, cheio de nada e de tanto, não são de mais. Preciso delas. São como um soco na nuca, que me obrigam a sentir toda a dor e o prazer.
Roubaste aos homens, a todos os outros homens do mundo, todo o desejo capaz de me ausentar do resto da vida. Ladrão. E, agora, toda a minha vida está nas tuas mãos. Promete que a tratas com o mesmo desvelo com que eu trato a pele do teu corpo, embrulhada em beijos e ternura. E amor.
Vanessa Pelerigo
Jan
21
2010
Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.
In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed
Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.
It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.
William Henley (the English poet wrote Invictus in 1875 from his hospital bed after his leg was amputated in his lifelong battle against tuberculosis of the bone)
Jan
18
2010
Si tienes un hondo penar, piensa en mí:
si tienes ganas de llorar, piensa en mí.
Ya ves que venero tu imagen divina,
tu párvula boca que siendo tan niña
me enseño a pecar.
Piensa en mí cuando sufras, cuando llores
también piensa en mí, cuando quieras
quitarme la vida, no lo quiero para nada,
para nada me sirve sín tí.
Jan
15
2010
Jan
14
2010
Blue Velvet
Frank Booth: Baby wants to fuck! Baby wants to fuck Blue Velvet!
Mulholland Dr.
Betty Elms: [after kissing Rita] Have you ever done this before?
Rita: I don’t know. Have you?
Betty Elms: I want to with you.
Twin Peaks
Dale Cooper: Harry, I have no idea where this will lead us, but I have a definite feeling it will be a place both wonderful and strange.
Jan
14
2010
To hell whith small literature
We want something redbloodedE.E.Cummings, 1935
Abro as mãos em poema e todo o meu corpo é um pássaro. Quando te vejo há coisas dentro de mim que sossegam. Fantasmas, arquivos mortos e pó de tempo esquecido, deixado ao acaso nas veias e nos músculos. Dou comigo demasiadas vezes a perguntar o que és realmente para mim e não consigo com a força das palavras chegar a uma conclusão do que sinto cá dentro. Quero rir e amar-te como nunca conseguirei. Talvez no meu sorriso tu percebas que nunca ninguém foi mais capaz de te amar. Talvez com o brilho de todas as constelações nos olhos, um dia te agradeça por me teres dado toda a felicidade que me foi reservada quando nasci. Quando, pela primeira vez, chorei para dizer ao mundo aqui estou. A esconder o sangue que me fervia na cara. Nunca serão suficientes as vezes que te vejo, é certo e sabido.
És perfeito. E eu imagino a vestires o peito, a pores perfume na pele, a compores a camisa, o pulover, a ajeitares o cabelo. Cortaste o cabelo com a mesma tesoura com que me cortaste a respiração, mal te vi. Arde-me o corpo de pensar nisso. É possível estar apaixonado durante muito mais do que o razoável. Há fogos na ponta dos teus dedos sempre que me beijas a pele. Lembro-te que para além de tudo, de todo o amor, existem os nossos corpos solitários. Prefiro-os juntos.
Devia matar-me ou morrer já. Apaixonares-te por mim é quase uma irresponsabilidade porque és o homem para sempre. O teu peito esmaga-me o coração e o juízo sem sair do mesmo sítio. Apetece tanto tocar-me à tua frente com aquelas meias de má fama e com aqueles sapatos que me estrangulam o fim da perna e está frio. Tanto frio. Gostava que ele não me enlouquecesse ainda mais quando te vir a despir as calças. Estou encharcada de desejo, com o sorriso inocente perante o tamanho da vontade impossível. Despe-te e faz jus aos filmes que viste. Amo-te tanto que acho que vou explodir. Que a sofreguidão me faça tropeçar com todas estas vontades nos teus abraços. Nunca pensei que fosses tu a mandar-me para a fogueira. Estou infinitamente feliz.
Vanessa Pelerigo
Jan
13
2010
Jan
12
2010
A princípio não te vi: não soube que ias comigo, até que as tuas raízes atravessaram o meu peito, se uniram aos fios do meu sangue, falaram pela minha boca, floresceram comigo.
Pablo Neruda
Já disse tudo, perceberam? Não há aqui nada de novo. Direi sempre o amor com o coração na boca, com as tripas à vista. Não há nada que me faça mais completa que sentir o peito quente de ternura, de olhar só com a alma a voz do corpo. Desconfio que os dias de chuva são um disfarce de compaixão para as saudades e para o medo. Na infância, lembro-me de tapar a cabeça com o lençol e pensar que estava no melhor esconderijo do mundo. Sentia-me protegida contra luzes e sombras. Contra monstros e fantasmas. Agora, só te imagino dentro da minha cama encarnado de vergonha num arrepio ao rubro. A tua boca de incêndio lambe-me o juízo e as chamas.
Vanessa Pelerigo
Jan
11
2010
…e allora mangia la merda.
Jan
10
2010
Jan
8
2010
‘Would you tell me please which way I have to go from here?’
- ‘That depends a good deal on where you want to get to’ said the cat.Lewis Carroll, Alice’s Adventures in Wonderland
Uma palavra. Disse-a. Amo-te - uma palavra breve. Quantos milhões de palavras eu disse durante a vida. E ouvi. E pensei. Tudo se desfez. Palavras sem inteira significação em si, o professor devia ter razão. Palavras que remetiam umas para as outras e se encostavam umas às outras para se aguentarem na sua rede aérea de sons. Mas houve uma palavra - meu Deus. Uma palavra que eu disse e repercutiu em ti, palavra cheia, quente de sangue, palavra vinda das vísceras, da minha vida inteira, do universo que nela se conglomerava, palavra total. Todas as outras palavras estavam a mais e dispensavam-se e eram uma articulação ridícula de sons e mobilizavam apenas a parte mecânica de mim, a parte frágil e vã. Palavra absoluta no entendimento profundo do meu olhar no teu, palavra infinita como o verbo divino. Recordo-a agora - onde está? Como se desfez? Ou não desfez mas se alterou e resfriou e absorveu apenas a fracção de mim onde estava a ternura triste, o conforto humilde, a compaixão. Não haverá então uma palavra que perdure e me exprima todo para a vida inteira? E não deixe de mim um recanto oculto que não venha à sua chamada e vibre nela desde os mais finos filamentos de si? Uma palavra. Recupero-a agora na minha imaginação doente. Amo-te. Na intimidade exclusiva e ciumenta do nosso olhar mútuo e encantado. Fecha-nos o lençol na claridade difusa do amanhecer, estás perto de mim no intocável da tua doçura. Frágil de névoa. Fímbria de sorriso e de receio, de pavor, no meu olhar embevecido. Uma palavra. A primeira que em toda a minha vida me esgotou o ser. A que foi tão completa e absorvente, que tudo o mais foi um excesso na criação. Deus esgotou em mim, na minha boca, todo o prodígio do seu poder. Ao princípio era a palavra. Eu a soube. E nada mais houve depois dela.
Vergílio Ferreira in Para Sempre
Jan
7
2010
Jan
6
2010
É da tua mão que eu preciso agora. Há momentos, sabes, que me sinto tão cansado, todos estes dias cheios de palavras que me fogem. Então penso em ti: Joana. Penso: vou contar-te uma coisa. Há pouco tempo morreu a filha de um amigo meu, homem generoso e bom, melhor do que alguma vez fui. Um cemitério é um lugar horrível e a dor dele doía-me. Depois de tudo acabar voltei para o automóvel. Eram muitos passos nas veredas a voltarem para os automóveis. O caixãozinho branco. Aquelas árvores que tu conheces de quando a gente há dois anos. Despedi-me das pessoas um pouco ao acaso, sem sentir os dedos que apertava: têm tantos dedos as pessoas. Nem me lembro já porquê abri a mala do carro. Estavam lá dentro coisas tuas de Espanha: batas, papéis, as inutilidades confusas que estás sempre a juntar. Peguei numa das tuas batas, abracei-a. E desatei num choro de menino, de cabeça inclinada para a mala do carro na esperança de que não me vissem. Depois lá enxuguei o nariz à manga, nunca perdi o hábito de enxugar o nariz à manga, engoli-me a mim mesmo e vim-me embora. Sempre que me sento no teu carro lembro-me de ti. Também me lembro quando não me sento no carro mas sempre que me sento no carro lembro-me de ti. De ti e de Malanje onde começaste a ser, e as mangueiras tremem-me no interior do sangue.Mas é da tua mão que eu preciso agora. Há momentos em que me farto de ser homem: tudo tão pesado, tão estranho, tão difícil. Eu vou tendo paciência e no entanto, às vezes as coisas magoam, há ideias que entram na gente como espinhos. Não se podem tirar com uma pinça: ficam lá. É então que a cara principia a estragar-se e a gente diz e envelhece. Necessito de muito pouca coisa hoje em dia: uns livros, o meu trabalho de escrever, amigos que se estreitam com o tempo, alguns deixados para trás, não sei onde. A minha avó dizia que fui a pessoa por quem chorava mais. Nunca acreditei. Era autoritária, mimada, sedutora: tratava-me tão bem! Jogávamos a ver qual de nós dois conquistava o outro: andávamos mais ou menos empatados( sabes como detesto perder) e nisto ela morreu. Recordo-me de sair de sua casa e vir à cervejaria comer. Ainda não tinha tempo de sentir-lhe a ausência. Pedi o jornal desportivo ao empregado. Ao voltar para cima achei-a vestida sobre a cama. Agora é Novembro, tenho frio, ando às voltas com um romance de que não estou a gostar. Nunca estou a gostar do que escrevo, acho aquele em que trabalho o mais difícil, acho que as palavras me derrotam. Frases puxadas como pedras de um poço que não vejo. Banalidades que me indignam por estarem tão longe do que quero. Capítulos que me fogem, o plano da história dinamitado pelos caprichos da minha mão, que não faz o que pretendo: escapa-se sempre, inventa, tenho de apanhá-la a meio de um período inverosímil. Talvez seja por isso que preciso da tua mão. Ou não por isso: não bebo e no entanto há alturas em que me sinto tão só que é quase o mesmo. E sem essa solidão não me é possível escrever. O meu amigo a quem morreu a filha chama-se José Francisco. Quando sorri os cantos da boca parecem levantar voo. Faz-me bem. Gostava de sorrir assim. Experimentei ao espelho e não é igual. Quer dizer, a boca curvou-se mas os olhos ficaram fixos, duros. Deixei de sorrir e enchi a cara de espuma da barba, até ser apenas nariz e olhos. Então sorri outra vez e os olhos acharam graça e mudaram. Os meus olhos sérios olhavam para os meus olhos divertidos. Pisquei o esquerdo e o espelho piscou o direito. Lavei a cara, apaguei a luz, saí. Por um segundo veio-me a sensação de caminhar em Malanje. Aquele cheiro da terra, demorado, opaco, violento. E pronto, é tarde. Em chegando ao fim da página acabou-se. Ponho a tampa na caneta, os cotovelos na mesa e fico a observar a parede. Nem vou reler isto, mando tal e qual. Prefiro observar a parede, deixar-me impregnar devagarinho pela essência das coisas. Esta cadeira, aquele móvel, uma manchinha de cinza no chão, as minhas mãos geladas de frio a acabarem esta crónica. Se calhar amanhã telefono-te. Ou regresso ao romance na teimosia dos cães. Penso: nem que deixe a pele nele hei-de conseguir acabá-lo. Comecei-o no princípio de Outubro, falta muito. Alinho os papéis, ponho tudo em ordem para a escrita. Nem que deixe a pele nele hei-de conseguir acabá-lo. Leio a última frase, continuo. Só por um bocadinho de nada, antes que continue, importas-te de tirar as batas do carro? Importas-te de me dar a mão?
António Lobo Antunes in Segundo Livro de Crónicas
Jan
5
2010
Jan
4
2010
Isso nunca aconteceu antes? Não. Eu nunca tive sessenta e dois anos antes. Já não estava naquela fase da minha vida em que pensava que podia fazer tudo. No entanto, lembrava-me dela claramente. Vemos uma bela mulher. Vemo-la de um quilómetro de distância. Vamos ter com ela e dizemos: “Quem é você?” Jantamos. Etc. Naquela fase em que a preocupação está ausente. Entramos no autocarro. Uma criatura tão esplendorosa que toda a gente receia sentar-se perto dela. O lugar ao lado da mais bela rapariga do mundo - e está vazio. Por isso, sentamo-nos nele. Mas o agora não o é então e nunca será calmo, nunca será tranquilo. Preocupava-me que ela andasse por aí com aquela blusa. Despe o casaco e eis a blusa. Despe a blusa e eis a perfeição. Um homem jovem vai encontrá-la e arrebatá-la. Arrebatá-la de mim que ateei os seus sentidos, que lhe dei a sua estatura, que fui o catalisador da sua emancipação e a preparei para ele.
Philip Roth in O Animal Moribundo
by L.
Jan
3
2010
Jascha Heifetz plays La Fille Aux Cheveux De Lin (The Girl with the Flaxen Hair), No. 8 of Preludes, Book I, by Debussy
És tu a Primavera que eu esperava
A vida multiplicada e brilhante,
em que é pleno e perfeito cada instante.
Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poesia
Jan
2
2010
Das mãos já não me sai poesia. Tenho-as gastas, doridas. Estendo-as, esperando que alguém note as minhas mãos vazias.
Escrevia para te dar uma casa. Para que o teu corpo se revelasse no escuro como a película. Mas, agora andas dentro de mim e eu não sei dizer mais as memórias abrigadas pela pele.
Vanessa Pelerigo
Henri Cartier-Bresson
Jan
2
2010
relembrando, com saudade, um concerto dela na Aula Magna, em Lisboa, em 2004, onde cantou um fado de Ary dos Santos e Alain Oulman, “Meu Amor, Meu Amor”. A não esquecer…
Jan
1
2010
“Straightway the ideas flow in upon me, directly from God, and not only do I see distinct themes in my mind’s eye, but they are clothed in the right forms, harmonies and orchestration… I have to be in a semi-trance condition to get such results”, Brahms
Henryk Szeryng plays Brahms Violin Concerto in D Major
(Allegro non troppo - First Movement) - o meu preferido
(Adagio - Second Movement)
(Allegro giocoso - Third Movement)
“I consider music as the noblest language, bringing comfort, joy, inspiration and peace to mankind. I think that it is vital that peace be preserved, and if music can help - then let’s have music!”, Henryk Szeryng